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Tragédia Grega
ÉSQUILO, O CRIADOR DA TRAGÉDIA GREGA São três os grandes autores de tragédia grega: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Ésquilo (525 - 456 a. C.) é considerado o criador da tragédia grega, por ser o primeiro a fazer a transposição do ditirambo (que era uma narração lírica) para representação cênica (teatro). A ele devemos também a introdução de um segundo ator no interlúdio falado entre os tradicionais cantos corais das representações dionisíacas. A presença deste segundo personagem permitiu o diálogo / o conflito, sem o qual não haveria o desenvolvimento do teatro. Foi premiado cerca de doze vezes nos concursos dionisíacos. De toda a sua obra cerca de noventa tragédias chegaram até nossos dias apenas sete completas. A trilogia da Oréstia, constituída por três peças de assunto interligados, é formada pelas peças: Agamênon; Coéforas; Eumênides; Os Persas; As Suplicantes; Os Sete contra Tebas; Prometeu Acorrentado (parte de uma trilogia perdida). Prometeu acorrentado conta a história do mito de Prometeu O mito de Prometeu, inseparável da questão da origem do fogo, situa-se entre os mais antigos e universais, pois encontramos seus equivalentes na mitologia indiana, germânica, céltica, eslava. O fogo significava a inteligência e a sabedoria, fazendo com que os homens se diferenciassem dos animais. Além de ser indispensável ao cozimento dos alimentos, o fogo teria sido inicialmente confundido com o próprio alimento. Zeus, que era o deus máximo, ao assumir o governo do universo, pretendeu manter a humanidade numa situação semelhante a dos animais. Porém, Prometeu rouba uma parte do fogo divino, trazendo-o para os homens, que com isso passam a ser capazes de pensar. Zeus furioso resolve se vingar. E como castigo Prometeu é acorrentado a uma montanha (Monte Cáucaso), onde uma águia (abutre) diariamente irá devorar o seu fígado, considerado pelos antigos o órgão mais importante do corpo, pois representava a vida. Porém o fígado, tem a capacidade de se regenerar (e os antigos já sabiam disso) , e Prometeu jamais morrerá, vivendo o seu suplício eternamente. O significado desta bela história é a luta entre o ser humano e o poder superior. Prometeu é o herói que marca o início da civilização, com a revelação do fogo aos homens. Simboliza também a luta do homem condenado a enfrentar muitos sacrifícios na luta por seus ideais humanitários. Existe também uma outra explicação que propõe que Zeus, a fim de se vingar do roubo do fogo, escondeu do homem o seu alimento, a sua vida, e por causa disto os seres humanos serão eternamente condenados ao trabalho, com muito esforço e sofrimento. A seguir, transcrevo um pequeno trecho desta belíssima tragédia de Ésquilo, sobre este personagem que irá reaparecer ainda muitas vezes na literatura, como exemplo do herói romântico e idealista, capaz de sacrificar a própria vida pelo bem da humanidade. (A ação se passa nos rochedos da Cítia, onde os personagens O Poder e A Violência, exigem que as ordens de Zeus sejam cumpridas e que Prometeu seja acorrentado por Vulcano) O PODER Eis-nos chegados aos confins da terra, à longínqua região da Cítia, solitária e inacessível! Cumpre-te agora, ó Vulcano, pensar nas ordens que recebeste de teu pai, e acorrentar este malfeitor, com indestrutíveis cadeias de aço, a estas rochas escarpadas. Ele roubou o fogo, atributo de Zeus, precioso fator das criações do gênio, para transmiti-lo aos mortais! Terá, pois, que pagar por este crime perante os deuses, para que aprenda a respeitar a superioridade de Zeus, e a renunciar a seu amor pela Humanidade. VULCANO [1] - Para vós, Poder e Violência, a ordem de Zeus está cumprida: nada mais resta a fazer. Quanto a mim, sinto-me sem coragem para acorrentar pela força a um deus, meu parente, sobre esta rocha, exposto à fúria das tempestades! Vejo-me, no entanto, coagido a fazê-lo, pois seria perigoso esquecer as ordens de meu pai. Nobre filho da sábia Têmis [2], é bem contra minha vontade, e a tua, que te vou prender por indissolúveis cadeias, a este árido rochedo, de onde não ouvirás a voz, nem verás o semblante de um único mortal; e onde, exposto lentamente aos raios ofuscantes do sol, terás a pele queimada;. Oprimir-te-á o peso de um dor eterna, pois ainda não nasceu, sequer, o teu libertador. Eis a conseqüência de tua dedicação pelos humanos; como deus, que tu és, fizeste aos mortais uma dádiva tal, que ultrapassou todas os limites possíveis. Como castigo por essa atitude, ficarás sobre esta rocha, em pé, sem sono e sem repouso; de nada adiantarão suspiros e clamores dolorosos; o coração de Zeus é inatingível... O PODER E então? Por que tardas ainda? De que vale esta inútil piedade? VULCANO É que... os laços do sangue, e os da amizade são poderosos! O PODER Sem dúvida! Mas como desobedecer às ordens de teu pai? Não o temes, por acaso? VULCANO Tu serás sempre, ó Poder, destituído de piedade, e capaz de tudo! O PODER Certamente! De que serve lamentar a sorte deste criminoso, uma vez que não há remédio possível para seu mal? Não te canses, pois, na busca de um socorro inútil. VULCANO Oh!... Como abomino o ofício a que me consagrei! O PODER Por quê? Esse ofício não é a causa, nem a origem, dos males que aqui vemos presentes. VULCANO Quem me dera um companheiro, que comigo partilhasse deste sacrifício!... O PODER Muito podem os deuses, na verdade, porém dependem de um poder supremo; só Zeus é onipotente. VULCANO Realmente assim é... Tudo o que vemos o prova; nada tenho a discordar. O PODER Nesse caso, por que não cumpres tua missão, a fim de que teu pai não te veja negligente? VULCANO As correntes para os braços, ei-las aqui: podes vê-las. O PODER Vamos! Passa-lhes pelas mãos!... agora, prende-as ao rochedo por fortes marretadas. VULCANO Já o fiz, e meu trabalho não será em vão. O PODER Bate ainda mais! Aperta! Não deixeis afrouxar a corrente, pois ele é habilidoso, e capaz de se libertar! VULCANO Este braço em caso algum se poderá desprender... O PODER Pois acorrenta agora o outro, de tal sorte que ele sinta, que embora engenhoso, é inferior a Zeus. VULCANO Eis aí! Como o fiz, ninguém poderá censurar, exceto Prometeu. O PODER Prende agora com toda a força este gancho de aço, atravessando-lhe o peito. VULCANO Ai de ti, Prometeu! Como me penaliza tua desgraça! O PODER Eis-te de novo hesitante, com pena dos inimigos de Zeus! Cuidado, Vulcano; que também um dia virás a sofrer! VULCANO Vê! Que horrendo espetáculo! O PODER Vejo apenas um audacioso convenientemente castigado. Vamos! Passa estas correntes em torno de seus quadris! VULCANO Sei o que me cumpre fazer! Tuas ordens são supérfluas! O PODER Não importa! Minhas ordens e meus gritos não deixarão de te apressar! Desce um pouco agora; prende-lhe as pernas por fortes elos. VULCANO Já o fiz, sem grande dificuldade. O PODER Prende agora os pés por meio destes cravos. Quem vai julgar teu trabalho é severo; não o esqueças! VULCANO Como tuas palavras correspondem bem ao que sentes! O PODER Apieda-te de quem quiseres, mas não censures minha audácia, nem a dureza de meu coração! VULCANO Retiremo-nos! Seus membros já estão bem acorrentados! O PODER Insulta agora daqui os deuses, ó Prometeu! Rouba-lhes as honras divinas, para dá-las a seres que não viveram mais de um dia! Poderão, por acaso, os mortais, diminuir teu suplício? Em vão te deram os deuses o nome de Prometeu... Tu, sim! precisas de um Prometeu que te liberte! PROMETEU (só) Ó divino éter! Ó sopro alado dos ventos! Regatos e rios, ondas inumeráveis, que agitais a superfície dos mares! Ó Terra, mãe de todos os seres vivos, e tu, ó Sol, cujos olhares aquecem a natureza! Eu vos invoco!... Vede que sofrimento recebe um deus dos outros deuses! Vede a que suplício ficarei sujeito durante milhares de anos! E que hediondas cadeias o novo senhor dos imortais mandou forjar para mim! Oh! eis-me a gemer pelos males presentes, e pelos males futuros! Quando virá o fim de meu suplício? Mas... que digo eu? O futuro não tem segredo para mim; nenhuma desgraça imprevista me pode acontecer. A sorte que me coube, é preciso que eu a suporte com resignação. Não sei eu, por acaso, que é inútil lutar contra a força da fatalidade? Não me posso calar, nem protestar contra a sorte que me esmaga! Ai de mim! Os benefícios que fiz aos mortais atraíram-me este rigor. Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva; e ele tornou-se para os homens a fonte de todas as artes e um recurso necessário... Eis o crime para cuja expiação fui acorrentado a este penedo, onde estou exposto a todas as injúrias! Oh! Ai de mim! Eis-me aqui, coberto de correntes, um deus desgraçado, alvo da cólera de Zeus, odioso a todas as divindades que freqüentam seu palácio, tudo isso porque amei os mortais... Mas... que ouço agora? Será um rumor de aves que se aproximam? O ar se agita a um bater de asas... Seja o que for, tudo me apavora! Por Elza de Andrade Fonte: Interpalco